Romance “Flor de Sal”, de Arlindo Mota, evoca os Anos 30 do século passado
Presidente da Câmara acusa chefe de secretaria de Alcochete de “infracções de carácter político”
Em 1939, Facco Leite, presidente da Câmara de Alcochete acusou Pinto Ferreira, então chefe de secretaria da mesma Câmara, de comportamentos graves, o que lhe valeu o levantamento por parte do Governador Civil da altura de um processo disciplinar “por infracção de carácter político”. A sua leitura revela-nos a verdadeira substância do regime, a sua prepotência e intolerância, e ao mesmo tempo o percurso da consolidação do regime: Concebe um sistema político assente numa Constituição suportada em aparências formais. Proíbe os partidos políticos, instituindo a União Nacional. Cria uma polícia política (a PVDE). Organiza forças paramilitares, à semelhança do fascismo italiano, como a Legião. O cerco aperta-se a toda a oposição. Esta reage, por vezes com recurso a acções violentas, sobretudo por parte da oposição anarquista.
É com base nesta preciosa fonte histórica que Arlindo Mota escreve o romance “FLOR DE SAL” onde tece uma construção ficcional, que vai muito para além do episódio quase anónimo das desavenças de um chefe de secretaria com os poderosos da Vila e membros influentes da União Nacional em Portugal na década de 30 do século passado. Que o leitor tenha a paciência e a perspicácia para entender que, sob o manto de um pano de fundo político, o que mais interessa ao Autor é conseguir transmitir a força das relações sociais num período circunscrito da nossa história ainda não muito distante, centrado num amor proibido que cresce por entre as areias do pecado e da intriga política.
Como escreve o Professor Barata-Moura no prefácio à Obra: “Animando personagens, situações, e relacionamentos, reconstruindo cenas que das diferentes peças processuais se desprendem, promovendo um enquadramento sóbrio nos ambientes da época, Arlindo Mota dá-nos a ver, e a pensar, toda uma pequena trama de episódios que pontuaram, com os seus jogos e teias de pequenos poderes de expressão local e de apadrinhamentos mais altos, a mesquinhez sórdida de um salazarismo quotidiano.”
O romance terá o seu pré-lançamento em Alcochete, no próximo dia 20 de Junho, pelas 16 horas na respectiva Biblioteca Municipal.
Publicado por dizerbem em junho 17, 2009 09:06 AM | TrackBack